Setores que pretende se apropriar do patrimônio brasileiro pregam a mentira de que a privatização da Petrobras vai reduzir os preços dos combustíveis e tornar o atendimento mais eficiente. Com frequência, eles usam a telefonia como exemplo para defender essas ideias.

A realidade é muito diferente.

Em 1998, o governo de FHC privatizou a Telebrás, estatal de telecomunicações extremamente lucrativa. Estados seguiram a mesma política e privatizaram empresas locais.

Rapidamente, o setor foi ficando cada vez mais concentrado.

Hoje o mercado é dominado por poucas empresas que cobram preços altos (o brasileiro paga uma das tarifas mais caras do planeta) e muitos próximos uns dos outros.

Ou seja, a privatização quase não gerou concorrência, apenas permitiu a formação de um oligopólio privado.

E também não gerou qualidade. Pelo contrário, os serviços prestados pelas operadoras são de péssima qualidade. As empresas do setor são líderes em reclamações no Procon em 2020, somando mais de 258 mil queixas, geralmente ligadas a cobranças abusivas e a falta de solução de problemas. Também são líderes em processos na Justiça pelos mesmos motivos.

A situação é tão ruim que até um jargão se popularizou: “Telefonia no Brasil é boa? Vai tentar resolver qualquer problema com a operadora para ver se é boa mesmo”.

 

Sistema de telefonia aprofunda as desigualdades

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 25% dos brasileiros ainda não têm acesso à internet. Pode parecer pouco, mas estamos falando de 46 milhões de pessoas que estão, principalmente, na zona rural ou nas periferias dos centros urbanos.

Nas regiões mais pobres, mesmo quem consegue acessar a internet, tem acesso bastante limitado, geralmente pelo 3G, utilizando créditos que duram apenas alguns dias. Entre as pessoas das classes D e E que acessam a internet, 85% utilizam a internet apenas pelo celular e com pacotes de dados bastante limitados.

A disparidade de velocidade da banda larga entre regiões mais ricas e as mais pobres também é um grave fator de exclusão, afinal, empresas privadas priorizam áreas onde a população pode adquirir serviços mais caros (como velocidades maiores ou planos com mais capacidade de transferência de dados na telefonia móvel).

Por esse mesmo motivo, zonas rurais e cidades do interior também sofrem com a baixa qualidade, especialmente da telefonia fixa (banda larga).

Na prática, esses elementos colaboram para perpetuar o abismo social que separa ricos e pobres, já que as pessoas com acesso a internet de mais qualidade, por exemplo, terão ainda mais vantagens.

Enquanto os filhos de famílias mais ricas têm acesso a vídeo aulas e streaming, as pessoas mais pobres mal consegue fazer o download de um material educacional, como uma apostila.

 

 

Não foi a privatização que popularizou a telefonia

Você pode estar pensando agora: “os serviços podem ser ruins, mas todo mundo agora tem acesso, o que não acontecia antes”.

Errado: a verdade é que a entrega da Telebrás aos interesses das elites econômicas não garantiu nada do que prometeram.

É bem verdade que hoje temos muitos smartphones circulando no país. Porém isso aconteceria mesmo se a Telebrás não fosse vendida. De 1970 até 1990, instalar um telefone residencial era muito caro, chegando a custar US$ 5 mil. Mas entre a década de 1990 e os anos 2000 o sistema telefônico no mundo inteiro mudou.

Portanto, foi a tecnologia mundial que ajudou a baratear e aumentar o acesso. Antes da Telebrás ser privatizada, esse custo já tinha caído para 20 dólares.

O acesso pode ter aumentado, mas a privatização da Telebrás não popularizou o setor. Cerca de 20% dos brasileiros ainda não possuem acesso a um celular, pois o produto é caro e muitos ainda não sabem usar. O mesmo acontece com quem deseja ter um computador para acessar a internet.

 

Zero concorrência e pouco acesso à telefonia no interior

A venda da Telebrás, que era a maior empresa de telecomunicações da América Latina, fez com que produtos e serviços ficassem concentrados nas mãos de poucas empresas, o que não garante uma concorrência justa.

Além disso, o modelo contribui para a formação de um cartel que impede o crescimento de empresas menores.

A venda da Telebrás ainda fez com que o país deixasse de produzir tecnologia no setor.

Fora isso, em relação a outros países, a rede brasileira é extremamente limitada.

Prova disso é que mais de 1.500 municípios ainda não contam com fibra óptica, o que dificulta o acesso à internet de alta velocidade, principalmente na zona rural.

Isso acontece porque as grandes empresas se interessam por locais onde o lucro é maior e, por isso, deixam de atender regiões menos rentáveis.

Mesmo nos grandes centros urbanos e nas capitais, muitas regiões não são atendidas ou, quando são, falta tecnologia para entregar, por exemplo, banda larga de mais velocidade.

E mesmo a telefonia celular tem alcance extremamente reduzido. Em muitas localidades, basta se afastar um pouquinho da cidade para perder o sinal tanto de voz como de internet.

O que querem fazer com a Petrobras é o mesmo. A venda da estatal  (ou de partes dela) irá fazer com que o Brasil deixe de gerar riquezas e novas tecnologias.

 

Compartilhe o post
Instagram  | Facebook