A BR Distribuidora foi criada em 1971 pela Petrobras, em um momento em que a demanda por combustíveis crescia bastante. Naquele cenário, as multinacionais já tinham suas distribuidoras operando e dominando o mercado.

A empresa começou com pouco mais de 20% do mercado, mas se tornou a maior distribuidora do país em 1974. O segredo estava justamente em ter todos os processos dentro da mesma empresa, reduzindo custos (o que é hoje a tendência das grandes empresas). Era a Petrobras do poço ao posto.

A BR chegou a ser sinônimo da própria Petrobras, já que os mais de oito mil postos de combustíveis estão espalhados por todo o território nacional e levam o nome da estatal na fachada. Além disso, ela atuava em 99 aeroportos do país.

Em 2016, cerca de 80% do mercado brasileiro de distribuição de combustíveis estava com três empresas: a própria BR Distribuidora, a Ipiranga e a Shell.

Em 2017, o governo Temer decidiu abrir mão do controle da subsidiária e vendeu 29% das ações.

Em 2019, já sob o governo de Jair Bolsonaro e de sua política de desinvestimentos da Petrobras (forma sutil de chamar o desmonte e a venda de subsidiárias), a gestão da empresa vendeu mais 30% das ações, ficando com apenas 41% (ou seja, deixou de ter o controle acionário da BR Distribuidora, perdendo o poder sobre as decisões da empresa).

A BR Distribuidora era responsável por 10% das receitas da Petrobras.

Entre 2019 e 2020 o governo vendeu mais algumas ações e em setembro de 2020 anunciou que venderia o restante que havia sobrado.

A escolha do modelo de privatização foi ainda pior, porque diferentemente das privatizações tradicionais, nas quais a venda está condicionada a várias determinações que devem ser respeitadas pelo comprador, o caso da BR não há contrapartida porque não há mais um acionista majoritário.

E tem mais: segundo o acordo de venda, a BR pode continuar usando o nome da Petrobras durante 20 anos, o que é ruim, porque o Brasil perdeu grande parte de sua capacidade de segurar os aumentos dos preços e a população ainda continuará achando que esses aumentos são culpa da Petrobras.

Além disso, a situação ficou tão absurda que agora o governo brasileiro compra produtos da BR Distribuidora, como óleo diese marinho.

 

Depois de privatizada, aumento para os diretores

Setores sem compromisso com o bem-estar da população tentam espalhar a mentira de que as privatizações seriam o fim da “mamata”. Mas não foi o que aconteceu com os altos escalões da empresa.

A remuneração dos membros do Conselho de Administração – que inclui os representantes dos acionistas, a diretoria da empresa e o conselho fiscal – aumentou 272% em um ano!

O absurdo se torna ainda maior se lembrarmos que depois da privatização da empresa um acórdão com o Tribunal Superior do Trabalho (TST) possibilitou a redução de salários dos trabalhadores e trabalhadoras em até 50%.

Ou seja: aqueles que tiveram um super aumento de 272% em suas remunerações reduziram em 50% o salário dos trabalhadores e ainda aumentaram suas jornadas de trabalho para não pagarem horas extras!

No total, 1.030 trabalhadores tiveram reduções salariais e 860 trabalhadores foram demitidos, o que representou uma diminuição de 27,4% do quadro de funcionários.

Já o valor desembolsado com os altos salários passou de módicos R$ 13.954.018,97 em 2019 para R$ 51.920.018,97 em 2020. Em plena pandemia!

Economistas do mundo inteiro – e vejam, até mesmo o Banco Mundial – têm se colocado contra a desigualdade e mostrado que a origem dela começa pelas empresas privadas que, ao longo dos anos, praticam remunerações extremamente privilegiadas para a sua cúpula em detrimento da massa trabalhadora.

 

Terror psicológico

Para funcionários demitidos, ou que tiveram seus salários cortados pela metade, estar na BR Distribuidora era a realização de um sonho fruto de muito estudo, empenho e dedicação. Para fazer parte do quadro da empresa precisaram ser aprovados em um concorrido concurso.

Porém, tudo mudou. A privatização chegou com a narrativa de que a empresa seria melhor, mais eficaz, mais eficiente, responsável, incorruptível, boa para os empregados e para seus clientes.

Nada disso era verdade.

Ao mesmo tempo, por trás dos panos, as elites faziam acordos com as empresas concorrentes da BR para que elas tomassem conta da empresa. Concorrentes que queriam acabar com a Petrobrás Distribuidora pois, desde a sua criação em 1971.

A BR se tornou líder de mercado e sempre esteve muito a frente delas. A defesa de uma “Nova BR” impunha uma nova cultura empresarial, em que todas as práticas que se mostraram eficazes historicamente eram rechaçadas e uma hiperfragmentação tomou conta da empresa.

A privatização da BR foi o modelo utilizado para avançar na privatização de todo o sistema Petrobrás, para destruí-lo e torná-lo refém de empresas concorrentes. Com isso, eles conseguem abortar a tão sonhada autossuficiência brasileira no petróleo, que serviria para o desenvolvimento do país.

Algo já anunciado no grampo premonitório de uma ligação de Romero Jucá: “do grande acordo nacional com o Supremo, com tudo”.

 

Compartilhe o post
Instagram  | Facebook