Desde seu início, em 2019, o Governo Federal vem aprofundando a política de direcionar os esforços da Petrobras apenas para a extração e venda do petróleo cru (a preços baixos), para depois comprar combustível de outros países, especialmente os Estados Unidos (pagando caro). Ao mesmo tempo, reduziu propositadamente o refino aqui no Brasil.

Esse é um erro estratégico gigantesco. Mas o que há por trás disso?

É uma escolha do Governo para agradar os investidores estrangeiros, mesmo que isso prejudique a população brasileira e comprometa o potencial do Brasil, dando continuidade à política de preços dos combustíveis criada pelo governo Temer, baseada no câmbio (em dólar) e no preço internacional do petróleo (um indicador bastante sensível a variações por guerras, conflitos, questões climáticas, sanitárias e decisões políticas de outros governos).

O governo chegou a alegar ser mais barato importar combustível que refinar no Brasil. Porém, números do final de 2018 da própria Petrobras desmentem essa teoria, pois apontavam que o custo do refino do barril de petróleo no Brasil era próximo dos US$ 2, enquanto nas sucursais estrangeiras da própria empresa custava US$ 3, uma diferença de 50%. Logo, parte da política se baseia em mentiras e não se sustenta de maneira técnica.

O governo quer vender refinarias

Outro aspecto por trás desta política de abandono do refino é a intenção do governo em vender refinarias para empresas estrangeiras. Ao reduzir sua utilização, cria-se uma falsa sensação de que elas são dispensáveis. É a velha tática de sucatear para vender.

Em 2019, nove das treze refinarias foram colocadas de bens públicos disponíveis para a venda. Entre elas está a Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim-MG, que tem a capacidade de refinar 7% de todo o combustível usado no país.

Se houvesse investimento para aumentar a capacidade de refino, o Brasil conseguiria se tornar autossuficiente em combustível.

A entrega de refinarias para o capital estrangeiro não é uma decisão tecnicamente inteligente. Iremos provar isso logo abaixo.

Não focar na extração e no refino?

Obviamente, a extração de petróleo cru tem custos menores. É uma atividade altamente lucrativa quando o preço internacional do barril de petróleo está alto. Porém, quando o preço internacional cai, como nesta crise do petróleo causada pela pandemia do Coronavírus a partir de março de 2020, o lucro diminui e pode até virar prejuízo, se ficar baixo demais.

O refino tem maiores custos, mas gera receitas estáveis, além de criar produtos diferentes (como combustíveis e matéria-prima para a indústria). Os produtos refinados e derivados têm menor sensibilidade quanto às variações internacionais e é uma maneira de se controlar os preços dos combustíveis usando o excedente de produção, além de abastecer o mercado interno de vários setores.

Quanto mais se refina dentro de um país, menos ele precisa importar. Assim, ele é menos refém dos preços vindos de fora e do câmbio.

Porém, o atual Governo não pensa assim e está abrindo mão do controle do mercado e de ter lucros mais constantes. Os lucros recordes de 2019 da Petrobras foram inflados pela venda de ativos (subsidiárias estratégicas), enquanto os lucros dos anos anteriores foram fruto de produção e comercialização. Isso inclusive afetará a lucratividade da empresa no médio e longo prazo.

Se pensasse além do curtíssimo prazo, o Governo brasileiro investiria na construção de novas refinarias e na conclusão das que estão paradas. O investimento seria facilmente absorvido com o passar do tempo e o país ganharia autonomia em troca, além da chance de se tornar exportador de bens com valor agregado.

Cenário atual

Antes da Petrobras anunciar redução de extração por causa da pandemia do Coronavírus, o Brasil estava extraindo, principalmente graças ao Pré-Sal, cerca de 3 milhões de barris de petróleo por dia. A capacidade de refino está na casa dos 2,29 milhões barris/dia. A demanda nacional por combustíveis estava ligeiramente acima do que se extrai.

A capacidade utilizada das refinarias estava propositalmente entre 60% e 70% do total. O Brasil estava importando mais combustível do que produz, pois o governo prioriza o capital internacional e não o consumidor brasileiro.

Com a crise de queda de demanda causada pela pandemia, mesmo com o câmbio cada vez mais desfavorável, o governo brasileiro preferiu diminuir ainda mais o uso de suas refinarias ao invés de tentar suprir a nova realidade de consumo internamente. Agora elas estão operando em média com metade da capacidade.

A Regap, em Betim, por exemplo, chegou a usar 91% de sua capacidade em 2018. Hoje opera com cerca de apenas 40%.

Enquanto isso, o diesel importado dos Estados Unidos é responsável por boa parte do mercado nacional, com preços internacionais e um câmbio que já vinha ficando cada vez mais desfavorável antes da pandemia. Um total de 90% do diesel importado vem de lá.

Embora a extração e o consumo no Brasil sejam praticamente equivalentes, o petróleo brasileiro é de um tipo pesado. Para o refino, ele necessita ser complementado por um petróleo mais leve vindo de países árabes ou africanos, principalmente a Nigéria. Se houvesse investimento nas refinarias, a dependência diminuiria ou até acabaria.

Correndo na contramão

Os principais países da economia mundial possuem maior capacidade de refino que de extração de petróleo. É uma forma de garantir preços lucros mais estáveis exportando produtos de maior valor agregado e também de controlar preços internos.

Os Estados Unidos extraem 13 bilhões barris/dia, mas podem refinar 18 bilhões barris/dia.

A China extrai normalmente apenas 3,85 bilhões barris/dia. No entanto, conseguem refinar espantosos 14,51 bilhões barris/dia. Antes da pandemia, o consumo do país era de 12,8 bilhões barris/dia.

A Rússia refina o dobro do que consome. Porém, por ter um território gigantesco, o maior do mundo, é o segundo maior exportador de petróleo cru (atrás apenas da Arábia Saudita). No entanto, uma queda de extração não afeta muito o mercado interno.

Grandes empresas estrangeiras como ExxonMobil e Shell também refinam mais que extraem. Elas sabem que a venda de refinados garante melhores preços, lucros constantes e saúde financeira.

Enquanto isso, o governo brasileiro prefere fornecer matéria-prima para esses países. Os efeitos vieram com a queda do preço do petróleo, que fez a Petrobras ter a maior queda de valor entre as grandes petrolíferas do mundo, justamente por focar demais na venda do petróleo cru. E os outros países nos vendem combustíveis mais caros depois.

Claramente o Governo brasileiro não possui visão de longo prazo e muito menos um projeto de país soberano e voltado para o futuro.

 

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