Há um mito de que os preços dos combustíveis no Brasil são altos por causa do alto custo do refino do petróleo no país.

Esse boato é usado como forma de convencer a população de que seria um bom negócio vender as refinarias da Petrobras.

Mas na verdade, seria um péssimo negócio.

Os preços no Brasil são altos por causa da política de preços iniciada pelo governo de Michel Temer e seguida pelo atual governo, que leva em conta a cotação do petróleo no mercado internacional e a variação do câmbio em dólar, tudo no curto prazo. Assim, já aconteceu de dois aumentos serem decretados numa mesma semana.

Entre 2003 e 2015, a política de preços era outra: segurar os preços em períodos maiores, geralmente seis meses, e definir o valor com base no câmbio futuro e na cotação do petróleo. Naquele período, a Petrobras teve seu maior crescimento de patrimônio e de presença no mercado internacional.

Qual o papel das refinarias?

O Governo atual quer vender as refinarias da Petrobras. Dez delas foram incluídas em um pacote de patrimônios que podem ser vendidos. A intenção é que a estatal fique cada vez mais focada na exploração e venda de petróleo cru, o que vai na contramão da maioria dos países em desenvolvimento que são grandes produtores de petróleo.

Antes da pandemia do Coronavírus, as refinarias já funcionavam propositadamente na casa de 60% de suas capacidades. Agora, já estão com cerca de 50%. Em ambos os casos, o governo precisa importar combustíveis, deixando o Brasil refém dos preços externos em um cenário em que o dólar nunca esteve tão caro.

Um exemplo da pouca utilização das refinarias é a Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte. Ela tem capacidade de refinar até 7% de todo o petróleo nacional. Em 2018 estava operando com 91% de sua capacidade. Hoje, usa apenas 40% de seu potencial.

As refinarias são a forma mais eficaz de se controlar os preços dos combustíveis e gerar receitas estáveis para a Petrobras, pois os preços variam menos do que o petróleo cru.

O produto refinado pode ter seu excedente usado para segurar variações de preços internacionais e do câmbio.

Além disso, quanto mais se refina no Brasil, menos gasolina, diesel e gás de cozinha precisam ser importados. Assim, os preços são reduzidos, favorecendo à população.

As refinarias da Petrobras são regionalizadas, funcionam como um sistema, abastecendo preferencialmente as regiões próximas, gerando economia na distribuição. Vendê-las pode gerar desabastecimento em regiões menos rentáveis para os novos donos.

O Governo e setores que pretendem entregar o patrimônio nacional para mãos estrangeiras tentam enganar a população, dizendo que se privatizassem a Petrobras os preços dos combustíveis iriam baixar.

No entanto, números da própria empresa mostram o contrário: do final de 2018, o refino do barril de petróleo no Brasil custava cerca de US$ 2, enquanto nas sucursais estrangeiras custava US$ 3, ou seja, 50% mais caro.

Logo, refinar no Brasil é mais barato que importar tudo com preço internacional.

Perder valor e relevância: Coronavírus mostrou o que acontece

No mundo, as principais empresas de petróleo buscam se diversificar, atuando em extração, transporte, refino e distribuição, além de novas tecnologias. Aqui no Brasil, o Governo quer focar apenas na extração e venda de petróleo cru.

Cuidando só da extração, a Petrobras tende a perder valor e encolher, ficando suscetível a crises internacionais e variações de câmbio ao vender apenas matéria-prima.

Um exemplo dramático foi quebra do petróleo em março de 2020. Por focar excessivamente em venda de petróleo cru, e tendo a China como principal cliente, a Petrobras foi a companhia mundial que mais perdeu valor de mercado com a crise causada pelo Coronavírus e a queda de demanda mundial. Por causa dessa visão equivocada do atual governo, a Petrobras teve seu valor de mercado reduzido em cerca de R$ 202,9 bilhões.

Produtos refinados, por sua vez, têm maior valor de venda e a tecnologia envolvida ajuda a dar maior valor à companhia, pois conhecimento vale muito.

Vender refinarias é condenar o Brasil a repetir uma triste tradição de sua história de colônia de exploração, vendendo matéria-prima e comprando bens industrializados.

Nenhum país consegue se desenvolver dessa forma.

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