Há um discurso amplificado por setores sem compromisso com o país e com a população de que precisa privatizar tudo e que o Estado precisa ser mínimo.

Tal discurso afirma que os preços cairão com uma suposta concorrência dentro do mercado privado.

No entanto, independentemente de preferências partidárias, tal raciocínio não sobrevive a uma boa rodada de números, comprovando que os preços dos serviços privatizados tendem a subir acima da inflação. Isso significa que todo o processo de desestatização do final do século 20 não trouxe vantagens econômicas e sociais ao povo brasileiro.

Um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI, entidade patronal) pegou dados de 1999 — ano em que foram realizadas as maiores privatizações de serviços públicos da história do Brasil — até 2019 e concluiu que, nesses 20 anos, os serviços passados para a iniciativa privada tiveram, em média, aumentos superiores à inflação oficial do período.

Os setores de energia elétrica, transporte, educação, remédios, hospitais e combustíveis foram avaliados. Só televisores e computadores, que justamente passaram por massificação e queda do custo de fabricação no período, ficaram abaixo da média inflacionária.

Enquanto o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — que mede a inflação oficial — no período registrou 240%, a cesta de serviços médicos e hospitalares subiu 374%. A energia elétrica subiu 358%. O transporte coletivo teve alta de 352%. A educação formal aumentou seu custo em 340%.

Mas não se abre concorrência?

Há um falso senso comum de que privatizar significa abrir concorrência. Não é bem assim. O mesmo estudo da CNI apontou que justamente a falta de competição e falhas de mercado que provocaram os aumentos de preços.

Ou seja, setores importantes foram privatizados, há concorrência e mesmo assim os preços aumentaram muito e, nem sempre, a qualidade dos serviços acompanhou.

Vale lembrar que em energia elétrica e água, por exemplo, não há necessariamente escolha de qual empresa você irá contratar. Não há duas estruturas num mesmo lugar para te atender e atender às empresas.

Assim, com a subida dos custos de energia, transportes e combustíveis, a indústria viu seus custos de produção serem pressionados. Enquanto puderam absorver isso, perderam receita e, depois, repassaram aos consumidores.

Defender setores estratégicos do patrimônio nacional da privatização não é questão de nacionalismo. É apenas um pouco de bom senso: o benefício é maior quando estatal.

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